
Introdução
Origem da palavra carnaval
Quando um cristão evangélico se vê diante da palavra ou evento carnaval naturalmente lhe vem à mente a ideia de “festa da carne”, no sentido de uma ocasião em que se dá vazão, sem limites, aos desejos e prazeres da carne (ou carnais). Entretanto, é muito curioso e, até certo ponto surpreendente, verificar sua etimologia.
O termo carnaval deriva do latim medieval carnem levare – “abstenção de carne” – relacionado ao início da Quaresma. O latim carnem levare designava a véspera da quarta-feira de cinzas, isto é, o dia em que se iniciava a abstinência de carne como alimento animal exigida pela Quaresma. Portanto, o significado primário era dietético e litúrgico, não moral-sexual. O carnaval marcava, assim, o último momento antes dessa restrição. Durante a Quaresma, especialmente na tradição católica medieval, evitava-se: Carne, Festas, Casamentos e Celebrações públicas.
Portanto, a associação com “desejos carnais” é posterior e interpretativa, não etimológica. Na teologia bíblica, especialmente no Novo Testamento, “carne” (sarx, no grego) frequentemente significa: (i) Natureza pecaminosa; (ii) Inclinações desordenadas; (iii) Desejos contrários ao Espírito (cf. Gálatas 5.16-21). Contudo, essa não é a origem linguística da palavra “carnaval”.
Origem do carnaval
O carnaval possui uma origem pouco definida. É apenas provável que suas raízes estejam ligadas a antigas festividades de caráter religioso, celebradas em honra ao renascimento da natureza com a chegada da primavera. Em um horizonte histórico mais próximo – e certamente mais concreto – sua origem pode ser associada às celebrações da Antiguidade de cunho orgiástico[1], como as bacanais e as saturnais romanas.
Na conceituação secular e histórica, o carnaval corresponde a um conjunto de folguedos populares tradicionalmente realizados nos três dias que antecedem o início da Quaresma – do domingo da quinquagésima[2] à terça‑feira gorda. Registros históricos indicam que seu modelo mais célebre teve origem na Itália, especialmente em Roma, acompanhada por cidades como Veneza, Florença, Turim, Ivrea e Nápoles. Fora da Itália, diversas cidades europeias também prestaram – ou ainda prestam – culto ao espírito carnavalesco, entre elas Munique e Colônia, na Alemanha, e Paris e Nice, na França. Nos Estados Unidos, destacam‑se os festejos de New Orleans.
A posição da Igreja Católica Romana.
“Nem sempre foram cordiais as relações entre as autoridades eclesiásticas e os carnavalescos, cujas atitudes desregradas mereceram censura de alguns papas e doutores da Igreja. O que prevaleceu, contudo, por parte da Igreja, no tocante à festa popular, foi uma atitude geral de tolerância, tanto mais quanto a fixação cronológica dos períodos momescos gira em torno de datas determinadas pela própria Igreja. O carnaval antecede a Quaresma. É uma festa de características pagãs, mas que termina em penitência, na tristeza das cinzas.”[3]
A Quaresma tem início na quarta-feira de cinzas e se estende por 40 dias (não contando os domingos), terminando na Semana Santa. Ela começa imediatamente após o carnaval. Sequência tradicional no calendário cristão histórico: 1º)Carnaval – últimos dias antes da Quaresma (domingo, segunda e terça-feira); 2º)Quarta-feira de Cinzas – início da Quaresma; 3º) 40 dias de penitência; 4º) Semana Santa; 5º) Páscoa.
É provável que em algum momento da história alguns “fiéis católicos” tenham acreditado que, a cada ano, podiam dar vazão aos desejos carnais, no carnaval, e depois participariam de uma purificação espiritual, na Quaresma, e ficaria tudo bem. Historicamente, essa não é a finalidade oficial da Quaresma – mas, sociologicamente, essa percepção muitas vezes acabou se formando. Entretanto, na teologia cristã histórica (católica), preferimos acreditar que a Quaresma nunca foi apresentada como: “Peque à vontade no carnaval e depois compense com penitência.”. Mas, que a proposta sempre foi: Arrependimento sincero, Exame de consciência, Jejum, Oração e Preparação para a Páscoa.
Rei momo e licenciosidade
A figura do Rei Momo no carnaval é simbólica e tem raízes na mitologia grega, sendo posteriormente incorporada às tradições carnavalescas europeias e, depois, brasileiras.
➡️📜 Origem mitológica
O nome Momo vem do grego Momus, que na mitologia era: O deus da zombaria; Da sátira; Da crítica; Da ironia. Ele representava o espírito da irreverência, da crítica às autoridades e da liberdade de expressão através do riso.
➡️🎭 Simbolismo no carnaval
No contexto carnavalesco, o Rei Momo simboliza:
👑 a) A inversão da ordem
Durante o carnaval, ocorre simbolicamente uma “suspensão” das normas sociais rígidas.
O Momo é coroado como rei temporário, representando:
⊳ A troca simbólica de papéis.
⊳ A quebra de hierarquias.
⊳ A liberdade momentânea
Isso remete às antigas festas medievais de inversão social.
🍷 b) A celebração do excesso
Tradicionalmente, o Rei Momo é representado como: Figura alegre, Corpulenta, Exuberante, Festiva.
Ele encarna: A fartura, A liberdade, A indulgência, A despreocupação.
🎉 c) O espírito da festa
Quando recebe simbolicamente a “chave da cidade”, ele declara aberto o carnaval. Isso representa:
⊳ Autorização para festejar.
⊳ Início da folia.
⊳ Entrega ao clima carnavalesco.
Ao final do período, sua “realeza” termina – marcando o fim da festa.
➡️🏛 Dimensão histórica-cultural
O Rei Momo foi incorporado ao carnaval brasileiro no início do século XX, inspirado nos carnavais europeus (principalmente o francês). No Brasil, tornou-se:
⊳ Figura oficial das aberturas de carnaval.
⊳ Personagem simbólico das prefeituras.
⊳ Representação midiática do evento.
➡️🔎 Análise simbólica mais profunda
Sob uma perspectiva sociológica, Momo representa:
⊳ A legitimação temporária da desordem!
⊳ A institucionalização da irreverência!
⊳ A permissão simbólica do exagero!
Sob uma perspectiva cristã crítica, alguns veem nessa figura:
⊳ A exaltação da zombaria!
⊳ A celebração da carne!
⊳ A substituição da sobriedade pela euforia irresponsável!
Para o cristão evangélico, a avaliação de qualquer prática cultural deve ser feita à luz das Escrituras. Embora o carnaval seja apresentado socialmente como expressão cultural, lazer e entretenimento, a Bíblia nos chama a discernir os valores espirituais que permeiam nossas escolhas – “julgai todas as coisas, retende o que é bom;” (1Ts 5.21). Sob essa perspectiva, o carnaval apresenta diversos aspectos que entram em conflito com os princípios do Reino de Deus, da Fé Cristã.
1. Estímulo à bebedeira e à perda do domínio próprio
O consumo excessivo de álcool é amplamente associado ao carnaval. A embriaguez compromete o discernimento, enfraquece o autocontrole e abre espaço para outros pecados.
📖 “E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito,” (Ef 5.18)
📖 “Ora, as obras da carne são conhecidas e são: … bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, …” (Gl 5.19-21)
📝 A vida cristã é marcada pelo domínio próprio, fruto do Espírito (Gl 5.22-23), não pela entrega aos excessos.
2. Promoção da sensualidade e da imoralidade sexual
O carnaval frequentemente exalta o corpo de forma erotizada, banalizando a nudez e incentivando desejos carnais desordenados.
📖 “Pois esta é a vontade de Deus: a vossa santificação, que vos abstenhais da prostituição;” (1Ts 4.3)
📖 “Fugi da impureza. Qualquer outro pecado que uma pessoa cometer é fora do corpo; mas aquele que pratica a imoralidade peca contra o próprio corpo.” (1Co 6.18)
📝 A Bíblia ensina que o corpo do crente é templo do Espírito Santo (1Co 6.19-20), devendo ser tratado com honra e pureza, não como objeto de exibição e desejo.
3. Incentivo à idolatria e a práticas espirituais contrárias à fé cristã
Historicamente, muitos elementos do carnaval dialogam com crenças religiosas não cristãs, cultos a entidades espirituais e práticas simbólicas incompatíveis com a fé bíblica.
📖 “Não terás outros deuses diante de mim.” (Êx 20.3)
📖 “… Ou que comunhão, da luz com as trevas?….” (2Co 6.14-17)
Muitos sambas de carnaval exploram temas relacionados a religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda. Esses conteúdos são muitas vezes retratados nas letras de samba, onde referências a orixás, rituais, e elementos dessas religiões aparecem travestidos de expressão cultural e simbólica. De fato, o Carnaval brasileiro tem sido um espaço privilegiado para a celebração e o reconhecimento das contribuições culturais e espirituais oriundas da África. Respeitamos as crenças das pessoas, mas não concordamos com aquelas que conflitam com a fé cristã.
Diversas escolas de samba já incorporaram em seus enredos elementos das religiões de matriz africana, exaltando a ancestralidade, os orixás e os rituais. Alguns exemplos incluem:
Mangueira (1998) – “A Namíbia, eu vou” > “Que valeram os abismais, Oxum, Xangô, Iemanjá /Sementes de cor, os filhos de Zumbi.”
Portela (1964) – “Canta, Canta, Minha Gente” > “A força dos orixás, a coroa de Ogum, Ogum guerreiro / A brisa, Oxum, e a batida de seus filhos!”
Salgueiro (1993) – “É de Azeite, É de Jurema” > “Oxum, sua lágrima de ouro / Acorda Iemanjá, Deus mãe dos mares / Acende a vela do candomblé e joga a onda do pai Xangô.”
Império Serrano (1982) – “Ο Canto do Rio” > “Vem, Iemanjá, filha do céu, senhora do mar, / O teu mando/ O seu culto é tradição do Império Serrano.”
Esses trechos são reflexos das influências das religiões africanas que, ao lado das expressões culturais tradicionais brasileiras, permeiam os enredos do carnaval e deixam claro o vínculo espiritual e cultural com os orixás e divindades afro-brasileiras.
📝 O cristão é chamado à exclusividade espiritual, adorando somente ao Senhor e rejeitando práticas que relativizem essa devoção.
4. Incentivo ao sexo sem compromisso e à banalização do matrimônio
A atmosfera do carnaval frequentemente normaliza relações sexuais passageiras, sem responsabilidade emocional, moral ou espiritual.
📖 “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula; porque Deus julgará os impuros e adúlteros.” (Hb 13.4)
📖 “mas, por causa da impureza, cada um tenha a sua própria esposa, e cada uma, o seu próprio marido.” (1Co 7.2)
📝 A Bíblia apresenta a sexualidade como uma dádiva divina a ser vivida com responsabilidade, compromisso e aliança.
5. Disseminação de doenças e desprezo pelo cuidado com o corpo
O comportamento desregrado associado ao carnaval contribui para a propagação de doenças, especialmente as sexualmente transmissíveis, revelando desprezo pela saúde física.
📖 “Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos?” (1Co 6.19)
📖 “Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo.” (1Co 6.20)
📝 O cuidado com o corpo também é um ato de mordomia cristã.
6. Falsa sensação de felicidade e fuga momentânea da realidade
O carnaval promete alegria, mas oferece (quando oferece) apenas uma satisfação passageira, frequentemente seguida de imenso vazio, culpa e frustração.
📖 “Há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte.” (Pv 14.12)
📖 “Até no riso tem dor o coração, e o fim da alegria é tristeza.” (Pv 14.13)
📝 A verdadeira alegria não está na euforia momentânea, mas em um relacionamento vivo e pessoal com Deus – “… porque a alegria do SENHOR é a vossa força.” (Ne 8.10)
7. Promoção do pecado e afastamento da comunhão com Deus
De modo geral, o carnaval cria um ambiente favorável à prática do pecado e ao enfraquecimento da vida espiritual.
📖 “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo.” (1Jo 2.15-17)
📖 “Sede santos, porque eu sou santo.” (1Pe 1.15-16)
📝 O cristão é chamado a viver de forma contracultural, refletindo os valores do Reino de Deus mesmo em meio a uma sociedade que segue em direção oposta.
Considerações finais
O carnaval é uma festa mundial que vem de há muito tempo. O carnaval brasileiro, nos últimos 50 anos, não deixou de ser popular, mas mudou de forma.
Ele passou:
⊳ De festa comunitária para evento institucional.
⊳ De brincadeira espontânea para espetáculo coreografado.
⊳ De expressão local para produto “cultural” global.
Hoje, convivem dois carnavais:
⊳ Um organizado, caro e espetacular.
⊳ Outro livre, popular e imprevisível.
Na década de 2000 o carnaval passou a ser visto como espetáculo global. Nesse período se consolidou como:
- Produto turístico internacional.
- Evento televisivo de alta audiência.
- Fantasias caríssimas.
- Camarotes VIP.
- Distanciamento entre quem assiste e quem desfila.
- Forte controle institucional (ligas, regulamentos, julgadores).
➡️ Muitos críticos passaram a falar em “desfile para jurados e câmeras”, não mais para o povo. Como resposta à espetacularização, surge um movimento de retorno ao carnaval orgânico, sobretudo nos blocos de rua.
Enfim, com o Crescimento na mídia (TV), Interesse turístico, Apoio do poder público e Patrocinadores, pode-se dizer que o cristão terá que conviver com a realidade do carnaval por muito tempo, mantendo-se distante.
Ressaltamos que a posição bíblica para esse distanciamento não se fundamenta em moralismo vazio, mas em um chamado ao discernimento espiritual, à santidade e à vida abundante em Cristo (Jo 10.10). Diante disso, muitos cristãos optam conscientemente por não participar e não assistir o carnaval (nem na TV e nem numa arquibancada ou camarote de Sambódromo), não por desprezo às pessoas, mas por fidelidade ao Senhor.
📖 “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus.” (1Co 10.31)
A pergunta final não é apenas “posso participar?”, mas:
“Isso glorifica a Deus e edifica minha vida espiritual?”
Se, por um lado o carnaval é uma realidade, por outro lado sempre será possível construir um contraponto. Vamos imaginar que as lideranças de todas as igrejas cristãs evangélicas se unissem e ressignificassem para si esse “feriadão de carnaval” e o denominassem de “Dedicatio Tempus” (Tempo de Dedicação), um tempo de recolhimento (pessoal ou coletivo) e dedicação especial a Deus. Fica aí a dica!!!
Bibliografia
1. Bíblia Sagrada (SBB – Versão Revista e Atualizada).
2. Bíblia Online – SBB.
3. Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda – 1982.
4. Internet.
[1] Orgiástico: Em linguagem histórica, antropológica ou literária, orgiástico refere-se a rituais ou festividades da Antiguidade marcados por: exaltação coletiva, liberdade de costumes, danças frenéticas, bebidas, e uma atmosfera de descontrole ritualizado. Não significa necessariamente “orgias” no sentido moderno e sexualizado, mas sim festas intensas, exuberantes e catárticas, como as bacanais dedicadas a Baco / Dioniso.
[2] Designa o domingo que ocorre cinquenta dias antes da Páscoa.
[3] Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda – 1982.









